Com amigos

Veteranos dão dicas de como montar uma república

Ser bixo não é fácil. Você acabou de sair de um ano intenso de estudos e provas. Chegou em um lugar desconhecido. Muitas vezes, está deixando a cidade onde mora e a casa dos pais. Claro que está ansioso por tudo isso, mas dá um frio na barriga. Você irá morar com pessoas que ainda não têm intimidade, terá que aprender a lavar roupa, cozinhar, gerenciar (o pouco) dinheiro que tem e limpar seu quarto.

Para te ajudar nessa tarefa, conversamos com alguns veteranos que passaram por isso e têm muito a dizer. No final das contas, se você escolher bem, todos dizem a mesma coisa: os novos moradores se tornarão seus melhores amigos e você passará os melhores momentos ao longo desses anos com eles.

Aqui vão as dicas.

Seja adotado

No dia da matrícula, muitos veteranos e veteranas se dispõem para receber bixos e bixetes em suas repúblicas, por um tempo provisório, ou até para uma vaga fixa, se houver espaço. “É um mês sem custo em que a bixete fica na nossa casa pra gente ajudar ela a ir pra faculdade, explicar como funciona as coisas, os esquemas de carona, mercado, festa. Pra ela enturmar e fechar uma casa junto com as amigas. É muito ruim ficar em um lugar em que você não conhece ninguém, não conhece a cidade, não sabe se é perto ou não”, explica Brenda Stuque, estudante do 4º ano de Engenharia Ambiental na Unesp, em Sorocaba, que hoje mora na Repuritanas.

É muito ruim ficar em um lugar em que você não conhece ninguém, não conhece a cidade, não sabe se é perto ou não.

Já seu amigo Giovanni Spezzano, mais conhecido como Mateuzinho, conseguiu uma vaga fixa logo de cara na República Hentrometeu, há quatro anos. “Ela já existia. Os moradores me encontraram no Facebook e me chamaram pra visitar. Eu visitei e gostei bastante, tanto da galera, quanto da casa”, comenta o estudante de Engenharia Ambiental.

O importante é você se sentir acolhido e morar pessoas que tenham o mesmo perfil que você. Nada de se apressar e sair escolhendo qualquer canto, sem pesquisar direito, como Ana Lígia Martins em seu ano de bixete. Ela veio de Itajubá (MG) para São Paulo e, na pressa, acabou dividindo um apartamento com mais duas meninas. “Eu nem gosto de chamar de república. Uma delas era tipo a dona da casa, mesmo que todas nós pagássemos o aluguel. Eu não me sentia parte da casa. Não ficava confortável lá. Eu era bixete perdidasssa. Foi bem ruim”, conta. Ainda bem que durou pouco. Um tempo depois, ela foi morar na Casa Maloca, pela qual é apaixonada.

Móveis: cada um leva o que puder

A melhor opção é que cada integrante ajude com alguns móveis, assim a casa também fica com a cara de todo mundo e, na hora em que alguém precisar sair, há menos chances de dar problema.

Mas, muitas vezes, vocês terão que comprar alguma coisa juntos. Nesse caso, conversem sobre como querem fazer quando alguém precisar se mudar: vocês irão vender e dividir a grana igualmente? Alguém vai ficar com o móvel e os demais pagam a diferença? Já combine antes, porque o combinado não sai caro 😉

As temidas contas

Seja em um apartamento morando em quatro ou numa casa com piscina morando em 12, uma hora as contas chegam. As possibilidades para se organizar são muitas. O importante é ver qual é o esquema que funciona melhor pra todo mundo.

Quando se mora em menos pessoas, uma boa opção é colocar uma conta no nome de cada morador. Assim, todo mundo fica com comprovante de residência. É o que fazia Rafael Mello, goiano que estuda Direito na USP de Ribeirão Preto, quando morava em apartamento com mais três colegas. E como as contas não eram tão altas, uma pessoa pagava e os demais restituíam.

Mas quando se mora em muita gente, os valores aumentam e fica difícil para alguém bancar tudo, mesmo sendo restituído depois. Então, o jeito é se organizar para que todos depositem antes o valor. Se vocês tiverem o mesmo banco, melhor ainda, pra não precisa ficar pagando taxas de transferência.

Quando Rafael se mudou do apartamento para uma casa com mais noves meninos, eles passaram a fazer isso. “Tinha uma conta que estava inativa de um dos meninos e a gente deposita nela”, conta.

Na Maloca, república mista onde moram nove pessoas, acontece o mesmo. De acordo com Ana Lígia, eles fazem todas as contas e uma semana antes das contas vencerem, eles depositam.

René Camargo, que mora junto com Rafael na Ediglê, lembra de um episódio em que alguém esqueceu de pagar a conta do mês e o serviço foi cortado: “Já ficamos semanas sem assistir TV por causa disso, em uma casa de 11 caras”. Imagina a tortura? Eles alopraram tanto que ninguém nunca mais esqueceu.

Tenha uma caixinha

Uma boa dica é ter uma caixinha na casa, para trocos de compras compartilhadas e gastos imprevistos. Faltou papel higiênico? Precisa comprar produto de limpeza? Vai rolar um churrasco e tá faltando breja? Pega da caixinha.

Para aqueles que moram em repúblicas tradicionais que ocupam a mesma casa há anos, com grande rotatividade, é importante que todos os moradores juntem algum valor para, quando a casa for devolvida, não sobrar apenas para os inquilinos atuais. Na Maloca, eles até fizeram um  banco: o Banco Maloca. “É uma grana que começamos a reservar quando percebemos que no dia em que tivermos que entregar a casa, reformá-la sairia muuuito caro. E é uma puta sacanagem deixar isso nas costas de quem for entregar, sem nenhuma responsabilidade dos ex-moradores”, conta Ana Lígia. Nesses três anos, eles já conseguiram levantar R$ 9 mil que depositaram como cheque-caução para não terem fiador, e pretendem continuar poupando. “A casa está bem velha e vai dar bastante gasto…”, continua.

Casa Maloca, república próxima à Cidade Universitária (USP-SP) 

Vamos às compras!

Se vocês têm costume de cozinhar juntos, vale a pena comprar os ingredientes juntos e dividir, pois sai mais barato. Mas isso costuma ser difícil, principalmente quando as pessoas são de cursos, anos e até faculdades diferentes.

“Hoje, a gente come diferente. Tô gordinho e como mal mesmo, mas tem gente que tá fitness, no frango com batata doce todo dia e pra dividir fica complicado”, fala Rafael, da Rep. Ediglê.

O mais comum é que cada um faça a sua compra, e os itens essenciais que todo mundo utiliza sejam divididos, como arroz, café, óleo, azeite, produtos de limpeza, etc. Outra dica bem boa é comprar os itens de limpeza em atacados, que sai muito mais barato.

Aprendendo a cozinhar

Se você não sabia, vai ter que aprender. Você não viverá sempre de bandejão. Peça ajuda às pessoas que moram com você: cozinhar junto é sempre mais divertido. Ou então aprendam juntos com os milhares de tutoriais pela internet ou mesmo aquela receita infalível da mãe.

O que não dá pra fazer é ficar comendo miojo o tempo todo, como Brenda fez no começo. “No primeiro semestre da faculdade, eu comia muito mal. Só miojo, ovo, algumas coisas muito fáceis de fazer. Eu comecei até a ficar doente. Depois de um tempo, eu percebi que era melhor pra mim começar a cozinhar e botar a mão na massa, parar de enrolar. A gente tem que crescer, né?” #ficaadica

Hoje, ela pegou gosto e gosta de preparar tudo que come.

República Ediglê

Dois hambúrgueres esquecidos

Houve um dia em que Rafael e os amigos resolveram cozinhar hambúrgueres. Deu tudo certo, ficou uma delícia, mas sobraram dois e eles colocaram no forno para comer depois. Acontece que eles esqueceram. Passou um dia, passaram dois dias, passaram sabe-se lá quantos dias. Um cheiro estranho começou a pairar na cozinha e ninguém descobria o que era.

Até que alguém, que nada tinha a ver com a história, encontrou os dois restos de hambúrgueres, tomados por larvas. “Era uma época mais bagunçada”, lembra. Mas a história foi engraçada, só não tanto pra quem teve que limpar.

Escala de limpeza ou faxineira?

Na Ediglê, a república de Rafael que começou em um apartamento com quatro pessoas, eles chamavam a Lúcia para fazer a faxina a cada 15 dias. Com a louça, às vezes dava problema e iam conversando. “Mas limpar a casa meeesmo, passar pano… era difícil”. Quando se mudaram para morar em 12 pessoas, tiveram que mudar um pouco esse esquema. Hoje a louça é “sujou, lavou”, eles têm agenda para lavar roupa, escala de lixo (tiram toda terça, quinta e sábado) e a Lúcia começou a ir toda semana.

Na Maloca, o esquema era parecido, até que chegou uma intercambista francesa. “Quando ela soube disso, achou um absurdo. Sentamos para conversar (nessa época só havia nós duas de meninas) e ela expôs seu desconforto sobre explorar alguém para limpar uma bagunça absurda por um valor longe de digno. O olhar estrangeiro dela fez todo mundo cair na real e perceber o quanto aquilo era injusto”, conta Ana Lígia.

“Mateuzinho” e seus amigos na república Hentrometeu

Após isso, os moradores decidiram assumir 100% da limpeza, mesmo com a casa sendo grande, tendo área externa e cachorro. Cada um se vira com seu próprio quarto e as áreas comuns são de responsabilidade de todos. Eles até se desfizeram das coisas que estavam acumulando. Afinal, com 13 anos de república, dá pra imaginar o quanto de coisa tinha, né?

Uma vez ou outra, rolam uns puxões de orelha, mas no geral eles seguram bem as pontas, mesmo sem um esquema fixo. A única regra fixa da casa, de acordo com Ana Lígia, é fazer faxina após dias de festa. “Aí é aquilo: acordamos de ressaca, botamos um som e começamos a catar todo o lixo espalhado pela casa e ir batendo água em tudo. Confesso que adoro dia de faxina hahahaha”.

A satisfação de ver a casa limpa depois é clara no rosto de todo mundo que participou. Aí a gente já emenda num churrasco ou filme na sala com todo mundo e é o fechamento perfeito pra um bom fim de semana.

Ela conta que, no começo, os meninos eram mais displicentes. “Moleque geralmente tem a mãe limpando atrás, né? E eu ficava meio tipo: ah, tudo bem”. Mas com o tempo ela foi incluindo todo mundo e ensinando mesmo. Tanto que hoje essa é a primeira coisa que ela fala quando alguém novo entra: “OW, A SUA MÃE NÃO TÁ MAIS AQUI, NÃO”.

E a mentalidade vai mudando. “Evoluímos juntos nessa questão. Todo mundo percebeu que pra ter uma casa legal, um espaço bacana pra ficarmos juntos numa boa, é necessário manter um mínimo de limpeza”, explica.

Na Reputiranas, Brenda e as amigas dividem as tarefas em uma escala bem organizada. “A gente fez uma planilha, imprimiu, tem nome e tarefa de cada uma na semana. Funciona bem. É uma planilha rotativa pra não pesar pra ninguém”.

O diálogo sempre em primeiro lugar

Você irá conviver com várias pessoas, então aprenda a respeitar. E se algo está te incomodando, converse. A casa também é sua e a melhor forma de solucionar um problema é pondo todo mundo pra pensar junto com você.

“Cresci tanto na parte de comunicação com minhas amigas, saber cobrar e ceder e por mim mesma, porque peguei gosto por cuidar do espaço onde eu mesma moro, sabe? Limpar minhas coisas, me cuidar e comer melhor”, conta Brenda.

Mesmo com a galera sendo de boa, mantenha os combinados e, se for sair fora dele, levar a namorada ou namorado, etc, dê ao menos aquela avisada.

Mais que amigas, friends!

O começo não foi fácil para Brenda, mas ela se adaptou rápido: “O fato de eu morar com gente que eu não conhecia a princípio deu uma certa insegurança, mas é algo que a gente tem que superar. E, hoje, elas são minhas melhores amigas”.

E não foi só ela. Ana Lígia, após o trauma do primeiro apartamento, encontrou na Maloca um lar, onde divide o quarto com uma outra estudante que virou a sua melhor amiga: “Nós cuidamos muito uma da outra. É uma relação de irmandade muito verdadeira. Eu acordo umas 8h e gosto de dormir mais cedo, umas 23h, e tenho o sono mega leve, não posso com claridade nem barulho. Mas ela é uma fofíssima e é mega cuidadosa para não me acordar. A gente deixa bilhetinhos uma pra outra, trocamos mensagens o dia todo pra saber como a outra está, essas coisas…”.

Amor de Rep ❤️

Por que Ediglê?

A república de Rafael leva o nome do jogador que foi campeão mundial pelo Inter: Ediglê Quaresma Farias. “Ele ganhou quase tudo na carreira e a gente achava o nome engraçado, e foi ficando.”

Já Brenda passou por várias. A cada nova moradora, elas mudavam o nome. Já foi Perreps, DaBeju (com as iniciais de Daniela, Brenda e Juliana) e agora Repuritanas. Mas, nos jogos Interreps, é comum que muitas repúblicas se juntem para competir. Foi aí que surgiu a Álcool-Íris, que costuma mandar muito bem nos campeonatos de truco.

Mais alguns conselhos…

René fala para aproveitar tudo o que vier:

“Bixos, se aventurem e aproveitem que, nesse período, tudo é muito novo e tem muita informação rolando. Morar em rep é a maneira de ter o contato mais direto com tudo que a vida universitária tem a oferecer, porque envolve conhecer gente de todos os cursos, sempre ter companhia pra ir nas festas (e ir em muitas) e aprender com aqueles veteranos mais velhos que já passaram por isso e sabem como funciona tudo.”

E pra Ana Lígia, o negócio é ficar de boa:

“Aproveite as oportunidades incríveis que você vai ter de crescer para caralho.  Toma as borduada da vida de boa. Cuide da sua saúde mental para estar sempre de boa de verdade. E aí é só saber reconhecer os momentos de alegria e aproveitá-los ao máximo. Não ter medo de criar lembrança boa, sabe? Tem uma galera que chega muito fechada pras novas experiências: acha que tá deixando pra trás uma cidade melhor, amigos melhores etc. E, mano, não é pra ser assim. Sua cidade ótima vai continuar ali, seus amigos (se forem tão ótimos assim) também vão continuar lá e ainda vão ficar felizes pra caramba de te ver feliz, te ver crescendo. Então, se joga sem medo e, por favor, sem ser babaca! Respeite os espaços dos outros e imponha-se para que respeitem o seu. Pronto. Já tem tudo pra ser incrível”.

República Maloca 

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